(…) A ligeira camada de nevoeiro rosa que envolvia a cidade fundia-se no horizonte em brumas de poluição escura. Sentado atrás na moto, sentia um odor acre de cidade flutuar no vento quente que me chegava ao rosto. O ar não se renovou durante o dia e estava ainda carregado de todo o calor acumlado pelas paredes e pelo asfalto, pela calçada e pela pedra dos edifícios, como se atmosfera tivesse conservado a memória térmica desta jornada canicular e que, no oxigênio rarefeito, tivessem sido fossilizados sedimentos de fumaça negra, de gás dos canos de descarga dos veículos e da poeira que eles levantavam. Não sei exatamente quando compreendi – melhor, pressenti, porque os meus conhecimentos da geografia de Pequim eram bastante elementares – que não estávamos tomando o caminho do hotel, que era mesmo impossível que neste momento déssemos no hotel. Seguíamos por um acesso à auto-estrada numa luz cada vez mais sombria, cada vez mais noturna, fugindo em direção a um céu ensanguentado no horizonte, onde o rosa se convertia em vermelho e o cinza se convertia em preto, cruzando agora os primeiros faróis dos carros na penumbra desta auto-estrada, onde os automóveis pareciam diluir-se no lusco-fusco, no que não era ainda noite, mas as últimas e exauridas luzes da jornada. (…)
Jean-Philippe Toussaint. Fugir. 2005